O cofre e a passagem de ônibus – o que possuem em comum?

Por Yuri Victorino

Quando possível busco itens para as coleções do Museu Numismático NUMIS. As Colheitas dos domingos no Brique da Redenção em Porto Alegre-RS, em feiras e lojas ou em eventos numismáticos, rendem bastante. São moedas, cédulas, cofrinhos, documentos, fotos, objetos, passagem de ônibus, de trem, metrô, etc. De alguma maneira o cofre e a passagem comungam o mesmo universo. Passagens impressas, ou fichas de ônibus são documentos fiduciários. Cofres são itens tridimensionais que guardam dinheiro ou bens. Ambos estão relacionados ao colecionismo e a numismática. O NUMIS tem por objetivo gestionar e disponibilizar a informação contida nos documentos e itens de valor numismático e histórico do acervo particular de interesse público de Yuri Victorino.

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Os cofres ajudam a guardar e proteger bens valiosos. Há milhares de anos estão presentes em nossas vidas. Isso prova sua eficácia ao longo dos anos e sua praticidade em exercer a função de segurança de objetos preciosos para seu dono. Como exemplo, temos os baús piratas, que tiveram seu auge durante os séculos XVI e XVIII.

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Quem nunca ouviu histórias de piratas nas quais enormes tesouros, moedas de ouro e joias eram guardadas em grandes baús de madeira, onde somente o capitão do navio possuía a chave. Esses baús não são apenas obras de ficção, realmente existiram e eram utilizados para guardar tesouros saqueados de navios que utilizavam o mar como principal rota comercial. Normalmente eram feitos de madeira e aço, resistentes à maresia, já que eram escondidos no próprio navio pirata. A pirataria foi se extinguindo após o século XVIII, porém a cultura envolta do baú como cofre, persistiu como herança para gerações futuras.

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Ao longo dos anos foram desenvolvidos novos cofres. No século XIX surgem com senhas numerais de até 00 a 99. O sistema mecânico e as novas estruturas tornava cada vez mais seguro, tornando quase impossível o arrombamento ou roubo. No século XX, com o progresso da tecnologia, foram criados cofres cada vez mais modernos, cada qual com a sua praticidade, como os contra incêndios ou portáteis, cada um servindo exatamente a vontade do cliente. No século XXI, onde a tecnologia faz ativamente parte da vida das pessoas, existem cofres biométricos que utilizam a digital do proprietário ou a iris do olho para abri-lo. Sistemas de segurança cada vez mais complexos. 

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Mas existem os cofres de latas. Estes vieram da necessidade de guardar dinheiro em local mais prático. Inicialmente se “poupava” dinheiro dentro da lata que era fechada com a tampa.

A poupança (a mais antiga forma de aplicação oficial do Brasil, tendo seu surgimento ainda no século XIX) surge com o objetivo de recolher os depósitos dos brasileiros (principalmente os menos favorecidos financeira e socialmente). Em 1861 o então Imperador Dom Pedro II afirmava no decreto nº 2.723, de 12 de janeiro do mesmo ano que “A Caixa Econômica estabelecida na cidade do Rio de Janeiro (…) tem por fim receber, a juro de 6%, as pequenas economias das classes menos abastadas e de assegurar, sob garantia do Governo Imperial, a fiel restituição do que pertencer a cada contribuinte, quando este o reclamar (…)”. Neste momento as latinhas fechadas, ou com cadeados, surgem como meio de resguardar as economias que posteriormente seriam levadas às instituições financeiras.

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E assim surgiu a caderneta de Poupança e seus cofrinhos, como um objeto de reserva ou um local seguro para que a população guardasse seu dinheiro (o nome caderneta deve-se ao fato de que os depositantes da Poupança tinham uma caderneta de controle para aplicações e resgates). E junto com ela surgiram os mais variados cofres. Inicialmente foram confeccionados em cerâmica e depois em couro e metais. Nos últimos 40 anos foram fabricados em grande escala, de vários formatos e materiais, como: papelão, lata e plástico. Resultado das campanhas publicitárias investidas pelas instituições financeiras, no sentido de cativar o poupador.

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Todos esses cofres descenderam de uma cultura ancestral. Ao longo dos anos serviram muito bem as necessidades das pessoas. Quando se olha para um cofre, assim como para demais objetos que são de uso rotineiro, existe uma história e uma funcionalidade que levou a ser importante para nós. O cofre é um exemplo disso tudo, está presente em casas, empresas, lojas e bancos. Embutidos ou portáteis, mecânicos ou digitais, biométricos digitais ou oculares. Em suma é inegável a importância que esse objeto teve e tem para as pessoas e seu dia-a-dia, sendo uma ferramenta eficaz quando o assunto é a segurança de bens.

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E o cofre de papelão do NUMIS? Qual a origem da lata Tsedacá? Tsedacá é um conceito Judaico. A Torá declara no versículo (Devarim 15:7,8): “Se houver um carente entre seus irmãos, numa de suas cidades, na terra que D’us deu a vocês, não endureçam seus corações nem fechem a mão a seu irmão carente. Vocês definitivamente devem abrir suas mãos e lhe emprestar o suficiente para o que lhe faltar”. 

A palavra hebraica Tsedacá é erroneamente traduzida como ‘caridade’, mas a palavra correta que provém de tsêdek é “justiça”. Ela difere da caridade pois esta é definida como “um ato de generosidade ou de auxílio a um pobre”. A Tsedacá não é meramente um ato de caridade: toda vez que alguém proporciona satisfação a outros – mesmo aos ricos – com dinheiro, comida ou palavras reconfortantes, ele cumpre esta mitsvá! Sendo assim a lata tsedacá é um cofre que guarda além do dinheiro. Este cofrinho da temática judaica é um dos muitos objetos interessantes das coleções do NUMIS.

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O Museu Numismático – NUMIS possui coleções de fichas e bilhetes relacionadas aos meios de transporte. No nosso entender são registros de transações comerciais. Comprovam que alguém pagou algum valor, para em troca receber o serviço de ser transportado de algum lugar a outro. Fichas e bilhetes calcificam esta tratativa. A passagem de ônibus impressa da Cometa é um exemplo disso.

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A Viação Cometa S.A. é uma das empresas de ônibus rodoviários mais tradicionais do Brasil. Por décadas, operou linhas na região sudeste do Brasil, baseada num modelo norte-americano, inspirando-se na empresa Greyhound Lines. Os ônibus eram construídos em carrocerias de duralumínio, o uniforme era similar ao da Aeronáutica (com pouca diferença nas cores) e operava sistemas de radio-comunicação entre suas bases e pontos de apoio numa época em que as comunicações eram complicadas e ainda engatinhavam no Brasil. É uma das pioneiras nas interligações na região sudeste, e uma das mais antigas na ligação do sudeste (São Paulo) com o primeiro estado do sul do país (Paraná).

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Suas linhas estão baseadas de São Paulo para o interior do mesmo estado, além de linhas interestaduais para o Paraná, Rio de Janeiro e Minas Gerais. A linha mais tradicional, São Paulo-Rio de Janeiro, operada desde 1951. A passagem aqui apresentada é de 1959.

Se seus documentos, fotografias, livros ou objetos tridimensionais necessitam de gestão, tratamento e digitalização, o NUMIS pode promover ações destas naturezas. Eu posso ajudar você. Para tanto acesse os canais de comunicação disponíveis no site. O importante é possibilitar o acesso às informações contidas nos documentos.

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Referências:

http://www.tribunadabahia.com.br/2012/01/08/a-historia-da-caderneta-de-poupanca-e-o-seu-dinheiro

http://www.chabad.org.br/interativo/FAQ/tsedaca.html

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